Pesquisadores do INCT.NIM analisam relação entre nutrição, neuroinflamação e desenvolvimento cerebral

A alimentação nos primeiros anos de vida pode ter influência importante sobre o desenvolvimento do cérebro. É o que discute um artigo de revisão publicado na revista científica Neuroimmunomodulation, liderado pelo pesquisador Claudio A. Serfaty, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neuroimunomodulação (INCT.NIM).

O trabalho reúne e analisa conhecimentos produzidos por pesquisas já publicadas para compreender a relação entre nutrição, sistema imunológico, neuroinflamação e desenvolvimento cerebral. A revisão mostra que tanto a falta de nutrientes importantes quanto uma alimentação desequilibrada podem interferir em mecanismos envolvidos na formação e no refinamento dos circuitos neurais.

Intitulado Neuroinflammatory Aspects of Early Life Malnutrition and the Impacts on the Refinement of Neural Circuitry and Plasticity, o artigo foi publicado em março de 2026. Além de Claudio Serfaty, assinam a publicação Patricia Coelho de Velasco da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mariana Pereira de Freitas (UFF), Julia Huber Ferreira (UFF) e Luana da Silva Chagas (UFF/INCT.NIM).

Alimentação e formação das conexões cerebrais

Durante o desenvolvimento, o cérebro passa por um intenso processo de formação e reorganização de conexões entre os neurônios. Algumas dessas conexões são fortalecidas e outras são eliminadas, permitindo o amadurecimento dos circuitos responsáveis por diferentes funções do organismo.

Nesse processo, células como a micróglia, que faz parte do sistema imune inato no cérebro, têm papel importante. Entre suas funções, durante o desenvolvimento pós-natal, está a participação na chamada poda sináptica, processo de eliminação de determinadas conexões durante a maturação cerebral. O funcionamento equilibrado dessas células contribui para que os circuitos neurais sejam organizados adequadamente.

A revisão mostra que fatores nutricionais podem interferir nesse equilíbrio, especialmente durante períodos críticos do desenvolvimento. Entre os nutrientes abordados estão o triptofano, necessário para a produção de serotonina, e os ácidos graxos ômega-3, incluindo o DHA, relacionado à formação de sinapses, à sobrevivência dos neurônios e à plasticidade cerebral.

Quando a inflamação pode interferir no desenvolvimento

Outro ponto importante discutido pelos autores é a neuroinflamação. O artigo explica que respostas inflamatórias fazem parte do funcionamento do organismo e podem desempenhar funções importantes no cérebro. O problema ocorre quando essa ativação se torna excessiva ou persistente, podendo alterar o funcionamento de células envolvidas na organização dos circuitos neurais.

A revisão também chama atenção para o fato de que os riscos relacionados à alimentação não estão apenas na falta de nutrientes. Dietas com excesso de gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados também são abordadas pelos autores por sua relação com a ativação de mecanismos inflamatórios. Estudos analisados no artigo mostram que o excesso de determinados ácidos graxos pode estimular vias inflamatórias em células do sistema nervoso.

Assim, uma das principais mensagens da publicação é que nutrição, sistema imunológico e desenvolvimento cerebral estão interligados. Durante fases importantes da formação do cérebro, deficiências nutricionais, inflamação e alterações metabólicas podem interferir em processos como a poda das conexões entre os neurônios, a mielinização e a plasticidade cerebral.

Na conclusão, os autores ressaltam a importância de prevenir a desnutrição no início da vida, manter uma alimentação com equilíbrio adequado de lipídios e aminoácidos e evitar o consumo excessivo de gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados. A revisão também destaca a importância de políticas públicas de educação para uma alimentação saudável durante a infância.

Figura 1 – O esquema mostra como o estado nutricional pode influenciar o desenvolvimento cerebral. Enquanto uma dieta equilibrada favorece níveis adequados de DHA e a síntese de serotonina, contribuindo para o equilíbrio da sinalização neuroinflamatória e para a maturação dos circuitos neurais, dietas desequilibradas podem favorecer processos inflamatórios capazes de interferir nesse desenvolvimento.

Fonte: Serfaty et al. (2026), Neuroimmunomodulation. DOI: 10.1159/000551790.

Acesse o artigo em: https://karger.com/nim/article/33/1/173/947063/Neuroinflammatory-Aspects-of-Early-Life

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