Simpósio do INCT.NIM fortalece integração entre grupos de pesquisa e amplia colaborações científicas

O primeiro simpósio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neuroimunomodulação (INCT.NIM) reuniu, nos dias 14 e 15 de maio, no Hotel Prodigy Santos Dumont, no Rio de Janeiro, pesquisadores de diferentes instituições brasileiras que integram a rede. Além de apresentar resultados recentes, o encontro foi concebido para ampliar o conhecimento mútuo entre os grupos, compartilhar projetos em andamento e estimular novas colaborações científicas.

Na abertura do evento, o coordenador do INCT.NIM, Wilson Savino, destacou que o principal objetivo do simpósio foi criar um ambiente propício à integração entre os investigadores principais e responsáveis por subprojetos do instituto. Segundo ele, a proposta não era apenas discutir resultados já consolidados, mas apresentar o que cada laboratório realizou, está desenvolvendo e pretende executar nos próximos anos, fortalecendo as conexões entre os grupos e aumentando a densidade da rede de pesquisa.

A programação refletiu a estrutura científica do INCT.NIM, organizada em cinco eixos temáticos: fisiologia das interações neuroimunoendócrinas; neuroimunomodulação em doenças infecciosas; neuroimunomodulação em doenças metabólicas e no envelhecimento; neuroimunomodulação em doenças do sistema nervoso; e biomarcadores e terapias personalizadas com potencial de aplicação no Sistema Único de Saúde (SUS).

A abertura incluiu ainda uma apresentação de Edla Herculano, da Coordenação de Divulgação Científica do INCT.NIM, sobre as ações de comunicação e popularização da ciência desenvolvidas pela rede. Ela também recitou um cordel de sua autoria, Dialeto neuroimunológico, que traduziu, em linguagem poética, as complexas interações entre os sistemas nervoso, imunológico e endócrino, tema central das pesquisas do instituto.

Doenças infecciosas e neuroimunomodulação

A primeira etapa de discussões abordou estudos sobre doenças infecciosas e suas repercussões neurológicas e imunológicas. Fernanda Grassi apresentou avanços na identificação de biomarcadores associados à infecção pelo HTLV-1. Segundo a pesquisadora, a carga proviral, que corresponde à quantidade de vírus integrada ao genoma do hospedeiro, está relacionada ao desenvolvimento de doenças associadas ao HTLV-1, como a mielopatia, uma doença neurológica grave, degenerativa e progressiva. De acordo com ela, quanto maior a carga proviral, maior a possibilidade de o indivíduo desenvolver manifestações neurológicas.

Fernanda destacou ainda que esse marcador também está associado ao surgimento de doenças inflamatórias e de neoplasias, sobretudo a leucemia/linfoma de células T do adulto. Além disso, observou que o sistema imune dessas pessoas se encontra mais ativado, com proliferação espontânea de linfócitos e expressão de marcadores de ativação celular, o que contribui para a desregulação imunológica e para o aparecimento de doenças associadas ao vírus.

Ao comentar a importância do simpósio, Fernanda Grassi ressaltou que uma das forças do INCT.NIM está na capacidade de reunir pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e de distintas regiões do país. Segundo ela, essa diversidade científica, geográfica, social e cultural amplia o olhar sobre os fenômenos biológicos, incorpora novas perspectivas à interpretação dos dados e favorece abordagens mais abrangentes para compreender como fatores genéticos, ambientais e sociais influenciam o desenvolvimento das doenças. Para a pesquisadora, o trabalho em rede permite que o conhecimento ultrapasse as fronteiras de cada laboratório e abra novas possibilidades de investigação.

Na sequência da programação, Bernardo Galvão discutiu a experiência do Centro de HTLV da Bahiana, iniciativa que articula neurociência, cuidado, impacto social e disseminação do conhecimento, enquanto Joanna Reis apresentou estudos sobre alterações persistentes do eixo HPA na leishmaniose visceral.

A programação incluiu ainda pesquisas de Myrna Bonaldo sobre flavivírus e sistema nervoso central; Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro sobre alterações cognitivo-comportamentais após malária não grave; Leonardo Carvalho sobre mecanismos de disfunção vascular na malária cerebral experimental; Marcelo Pelajo sobre angiostrongiloses; Florência Gonzalez sobre cardiomiopatia chagásica crônica; Roberta Olmo sobre neuroimunopatogênese do dano neural na hanseníase; Ingo Riederer sobre resistência e disseminação viral em células musculares esqueléticas humanas na infecção pelo vírus Zika; Eduardo Sequerra sobre interações neuroimunes entre mãe e sistema nervoso fetal na síndrome congênita do vírus Zika; e Deusilene Vieira sobre distúrbios neuroimunológicos associados a arboviroses e hepatites virais na Amazônia Ocidental.

Colaborações que nascem do encontro entre diferentes áreas

No eixo dedicado às doenças metabólicas e ao envelhecimento, Lício Velloso relatou um exemplo concreto de como a interação entre pesquisadores do instituto pode gerar novas linhas de investigação. Segundo ele, um projeto atualmente em desenvolvimento em seu grupo surgiu após discussões iniciadas em um encontro anterior da rede, quando resultados sobre autismo despertaram seu interesse para as possíveis relações entre diabetes, obesidade materna e alterações compatíveis com o transtorno do espectro autista.

Também foram apresentados estudos de Andreza de Bem sobre as interações entre cérebro, tecido adiposo marrom e microbiota; Vinicius Frias sobre interações endócrino-osso e envelhecimento celular em doenças metabólicas; Moisés Bauer sobre senescência precoce em pacientes com doenças autoimunes; Dumith Chequer sobre a interação entre redes extracelulares de neutrófilos e macrófagos; Zilton Vasconcelos sobre genômica e saúde pública de precisão; Ernesto Caffarena sobre interações moleculares de peptídeos da superfamília do glucagon; Hugo Caire sobre o papel do eixo intestino-cérebro na proteção do sistema nervoso central; e Barbarella Macchi sobre pesquisas biomédicas na Amazônia.

Amazônia como fronteira para a pesquisa biomédica

Em sua apresentação, intitulada Dos compostos naturais à contaminação ambiental: pesquisas biomédicas na Amazônia, Barbarella Macchi apresentou duas linhas de investigação desenvolvidas em seu laboratório. A primeira explora compostos naturais da biodiversidade amazônica com potencial terapêutico, especialmente em modelos celulares e inflamatórios. A segunda analisa os efeitos da exposição crônica ao mercúrio em populações ribeirinhas, com foco na identificação de biomarcadores e no desenvolvimento de ferramentas de monitoramento mais acessíveis.

Na avaliação da pesquisadora, o simpósio foi fundamental para aproximar grupos de diferentes especialidades, promover a troca de metodologias e ampliar as possibilidades de colaboração multidisciplinar. Para Barbarella, os estudos reforçam o papel estratégico da Amazônia como fonte de conhecimento científico e de soluções biomédicas com relevância para a saúde pública.

Doenças do sistema nervoso e novas abordagens terapêuticas

O segundo dia do simpósio concentrou apresentações sobre doenças do sistema nervoso e biomarcadores. Rômulo Galvani discutiu o microambiente imunológico em gliomas de baixo grau; Alessandro Farias apresentou estudos sobre a atividade efetora de linfócitos T CD4+ na neuroinflamação; Cecília Hedin-Pereira abordou o desenvolvimento do sistema nervoso e suas implicações para desordens mentais; Virmondes Rodrigues Jr. discutiu marcadores inflamatórios associados ao transtorno do espectro autista; Carmem Gottfried apresentou pesquisas translacionais em autismo; Claudio Serfaty tratou dos aspectos neuroinflamatórios do desenvolvimento dos circuitos neurais e da neuroplasticidade; e Rudimar Frozza apresentou estudos sobre interações neuroimunes na doença de Alzheimer.

Também foram apresentados estudos de Priscilla Oliveira Silva Bomfim sobre educação como fator de proteção e risco para a saúde mental ao longo do desenvolvimento; Felipe von Glehn sobre epidemiologia e biomarcadores em neuromielite óptica e doenças associadas ao anti-MOG; Geancarlo Zanatta sobre bioinformática estrutural e inteligência artificial aplicadas à descoberta de alvos e biomarcadores; João Hermínio Martins sobre o desenvolvimento de bloqueadores de sinalização celular orientados por métodos computacionais; e Marco Medeiros sobre o desenvolvimento e caracterização de anticorpos anti-VLA-4 para o tratamento de doenças neuroinflamatórias.

No eixo de fisiologia das interações neuroimunoendócrinas, Daniella Mendes da Cruz apresentou estudos sobre interações moleculares no desenvolvimento tímico; Adriana Bonomo discutiu o papel das células T CD4+ no neurodesenvolvimento; Elizabeth Giestal Araújo abordou a regulação da sobrevivência neuronal por citocinas; Wilson Savino apresentou pesquisas sobre involução e regeneração do timo; e Danielma Reis e Marvin Alves discutiram o papel da prolactina e da dopamina na modulação neuroimunoendócrina do timo.

Homenagem a Bernardo Galvão

A programação incluiu ainda uma homenagem ao pesquisador Bernardo Galvão por sua contribuição ao estudo do HTLV-1. O momento foi um reconhecimento à trajetória científica do pesquisador e ao legado construído ao longo de décadas de dedicação à ciência.

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