No Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neuroimunomodulação (INCT.NIM), onde diferentes áreas do conhecimento se encontram para compreender as relações entre sistema nervoso, imunológico e endócrino, a presença de pesquisadores com carreiras construídas ao longo de décadas ajuda a sustentar o diálogo entre gerações e campos científicos. É nesse ambiente que se insere a atuação do médico, pesquisador e membro do Comitê Gestor do INCT.NIM, Bernardo Galvão Castro Filho, cuja trajetória se conecta a momentos decisivos da ciência e da saúde pública no Brasil.
Formação e inserção na pesquisa científica
Formado em Medicina em 1969, com mestrado em Patologia Humana pela Universidade Federal da Bahia e doutorado em Imunopatologia pela Universidade de Genebra, na Suíça, Galvão construiu um percurso atento às demandas concretas da população. Ao longo dos anos, sua atuação acompanhou transformações importantes no campo da saúde, sem se distanciar da produção de conhecimento voltada à prática.

Em 1979, ao implantar o Centro de Imunologia Parasitária no Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, contribuiu para estruturar um espaço dedicado ao estudo de doenças como as de Chagas, leishmanioses, malária e micoses. Mais do que a criação de um centro, tratava-se da consolidação de um ambiente de pesquisa que alcançaria reconhecimento internacional.
Resposta científica à epidemia de HIV
Diante da emergência da epidemia de HIV, sua atuação ganharia novo sentido. Em 1982, realizou o isolamento do vírus pela primeira vez na América Latina e contribuiu para a implantação da triagem nos bancos de sangue no Brasil. O trabalho o colocaria entre os cientistas destacados na obra Ciência para o Brasil: 70 anos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (2019). Entre 1993 e 2001, coordenou a Rede Nacional de Isolamento e Caracterização do HIV, ampliando a capacidade de resposta científica em um dos períodos mais críticos da saúde pública recente.
Já em Salvador, a partir de 1988, implantou o Laboratório Avançado de Saúde Pública no Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Bahia, que se tornaria referência nacional para diagnóstico de HIV e HTLV. Em 2001, criou o Centro Integrativo Multidisciplinar de HTLV-1 na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), ampliando as investigações sobre retrovírus humanos e suas implicações clínicas.
Produção científica e formação de pesquisadores
Ao longo das décadas, sua produção científica se concentrou na retrovirologia humana, especialmente nos estudos sobre HIV e HTLV, atravessando diferentes dimensões, do comportamento viral às formas de diagnóstico e disseminação. Esse conjunto de pesquisas contribuiu para posicionar o Brasil em um campo estratégico do conhecimento.
Professor titular da EBMSP e pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Galvão segue atuando na formação de novos pesquisadores e na condução de estudos científicos. Sua presença, como no Comitê Gestor do INCT.NIM, comprova o papel de quem não apenas abriu caminhos, mas permanece na construção deles.
Em reconhecimento recente, a Academia de Ciências da Bahia (ACB) o nomeou seu primeiro Membro Emérito. como seu primeiro Membro Emérito. Prevista no estatuto da instituição para pesquisadores com mais de 80 anos, a distinção sinaliza uma contribuição que permanece ativa nos centros de pesquisa que ajudou a estruturar, nas redes que articulou e nas gerações que formou.
A dimensão desse percurso continua se projetando no presente. Durante a cerimônia pelos 69 anos da Fiocruz Bahia, Bernardo Galvão Castro Filho foi homenageado por sua contribuição à ciência e à saúde pública. A distinção destacou o primeiro isolamento do HIV no Brasil e na América Latina, além da atuação no enfrentamento do HTLV. Com a presença de representantes da Fundação Oswaldo Cruz, autoridades e integrantes da comunidade científica, o evento reuniu diferentes gerações em torno de experiências que ajudaram a estruturar respostas no país. A homenagem situa um trabalho que segue ativo na produção científica e na formação de pesquisadores.



Fotos: Fiocruz Bahia
Há trajetórias que podem ser organizadas por datas. Outras se definem pelo impacto que deixam. No caso de Bernardo Galvão Castro Filho, esse impacto se expressa nas estruturas consolidadas, nas respostas que a ciência foi capaz de oferecer em momentos críticos e na continuidade de um trabalho que segue presente no cotidiano da pesquisa e da saúde pública.