Molécula de RNA circular pode servir como indicador para detecção precoce do autismo

Pesquisa da UFRGS identificou que ratos com características autistas apresentam maior presença da molécula ciRS-7 no tecido cerebral; nova etapa da pesquisa, com seres humanos, está prevista para este ano

*A validação dos dados obtidos através de técnicas de bioinformática é realizada através de experimentos de bancada, em que o pesquisador se volta para as amostras biológicas com o intuito de confirmar os dados obtidos em softwares e em dados da literatura (Foto: Pietro Scopel/JU)

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento marcada por prejuízos na interação social, interesses restritos e atitudes repetitivas. Atualmente ele pode ser diagnosticado por critérios comportamentais avaliados por um neurologista, psiquiatra ou psicólogo.

Um dos caminhos para a criação de um exame diagnóstico em seres humanos é o estudo do transcriptoma, o conjunto de moléculas de RNA produzidas por um organismo. A partir dele, é possível identificar padrões de expressão gênica comuns nos pacientes com determinada condição, detectáveis no sangue de forma circulante.

Hoje em dia, já existem indícios de 400 segmentos de DNA muito relacionados ao desenvolvimento do TEA, e estes são estudados por pesquisadores da área da genética. Pequenos RNAs lineares (que produzem proteínas) e o RNA circular (que não produz proteínas), porém, também têm potencial para compor um kit para o diagnóstico e são encontrados apenas no transcriptoma.

Uma pesquisa do Programa de Pós-graduação em Neurociências da UFRGS mostra que esse padrão no autismo pode se manifestar no RNA circular dos indivíduos, uma estrutura resistente e estável que consegue se ligar a outras moléculas com facilidade. Mais especificamente, esses padrões podem ser observados na molécula chamada ciRS-7.

O precursor dessas análises foi o biomédico Guilherme Bauer Negrini, doutor em Neurociências pela UFRGS, que identificou que o ciRS-7 é mais abundante no tecido cerebral de ratos com características autistas. Ele desenvolveu um software para detectar qualquer RNA circular a partir do transcriptoma, permitindo conhecer, entre elas, a molécula do ciRS-7 – até então associada ao desenvolvimento de alguns tipos de câncer

Como o nível de ciRS-7 é um parâmetro insuficiente para um diagnóstico preciso em humanos, o grupo Estudos Translacionais em Transtorno do Espectro Autista (GETTEA), vinculado ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e ao Programa de Pós-graduação em Neurociências da UFRGS, deu continuidade à pesquisa, identificando todas as moléculas que interagem com o ciRS-7 e afetam funções diversas.

“Estatisticamente, é muito improvável que uma só molécula vá ditar a chance de se ter autismo”, explica Raul Izidoro, biólogo e integrante do GETTEA.

De 2022 a 2024, Raul foi colega de laboratório de Vanessa Prass, mestre pelo PPG Neurociências. Juntos, eles pesquisaram as redes de interação dessa estrutura de RNA circular.

São mais de mil moléculas que constituem essa rede de interação. Dentre elas, o grupo concluiu que os genes ligados às funções neuronais, à imunidade, à resposta inflamatória e à organização celular são os mais afetados pelo aumento do ciRS-7. Essas estruturas servem como indicadores adicionais na detecção precoce.“Antes de partir para a bancada, a gente precisava dessa pista, para saber quais seriam as nossas moléculas de interesse”

“Antes de partir para a bancada, a gente precisava dessa pista, para saber quais seriam as nossas moléculas de interesse”
Vanessa Prass

Os pesquisadores Raul Izidoro Carneiro e Júlio Santos Terra Machado discutem parâmetros de análise e resultados de expressão gênica de experimentos associados às vias reguladas pelo cirs-7 (Foto: Pietro Scopel/JU)

O futuro do diagnóstico

No primeiro semestre de 2026, os pesquisadores do PPG Neurociências da UFRGS realizarão testes em humanos e em animais, buscando comprovar os resultados anteriores, que utilizaram bancos de dados de RNAs e análises moleculares em modelo pré-clínico de autismo em roedores. 

“A gente sempre tem que reforçar essa questão de mensuração real, não só da previsão bioinformática, para realmente dar mais validade ao nosso achado”Raul Izidoro

Em março, serão feitos testes com ratos com características autistas – expostos, no décimo segundo dia de gestação, ao ácido valproico, substância que causa o aparecimento de condições semelhantes a esse transtorno no neurodesenvolvimento do animal. Os animais passarão pelo teste RT-qPCR, que avalia os níveis de ciRS-7 no córtex pré-frontal, uma região específica do cérebro. 

Já nos seres humanos, o exame de sangue mede o nível do RNA circular e de outras moléculas no plasma. O procedimento será feito em duas etapas. Entre julho e agosto, as amostras de sangue (já coletadas) de voluntários com TEA serão analisadas para validar a alteração do ciRS-7 nessa condição. Em seguida, entre setembro e outubro, serão feitas as análises de sangue em pacientes com outros transtornos, como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e esquizofrenia, para verificar se esse padrão é específico do autismo ou é encontrado também nessas outras condições.

A validação dos dados obtidos através de técnicas de bioinformática é realizada através de experimentos de bancada, em que o pesquisador se volta para as amostras biológicas com o intuito de confirmar os dados obtidos em softwares e em dados da literatura (Foto: Pietro Scopel/JU)

As análises biológicas muitas vezes demandam diversas etapas e equipamentos até que se obtenha a mensuração desejada. Na imagem, um termociclador, aparelho que faz a transcrição reversa (processo de obtenção de DNA a partir de moléculas de RNA) (Foto: Pietro Scopel/JU)
Pesquisa

Trabalhos acadêmicos

Dissertação e tese no PPG em Neurociências (ICBS)

Dissertação

Redes de interação mediadas por cirs-7/cdr1as e microRNAs no Transtorno do Espectro Autista

Autora
Vanessa Prass
Orientadora
Carmem Juracy Silveira Gottfried
Programa/Unidade
Programa de Pós-graduação em Neurociências
Instituto de Ciências Básicas da Saúde
Tese

Bioinformática de circRNAs: análise em modelos animais do Transtorno do Espectro Autista e desenvolvimento de um método de avaliação da usabilidade dos softwares utilizados para identificação

Autor
Guilherme Bauer Negrini
Orientadora
Carmem Juracy Silveira Gottfried
Programa/Unidade
Programa de Pós-graduação em Neurociências
Instituto de Ciências Básicas da Saúde

Fonte: UFRGS Jornal da Universidade | Por Camila Fernandes de Souza 

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