Com o objetivo de interromper uma rota negligenciada de contaminação perinatal, o INCT-NIM destaca o estudo liderado pela pesquisadora Maria Fernanda Rios Grassi, pesquisadora do INCT-NIM e da Fiocruz Bahia, para prevenir a transmissão vertical do vírus HTLV-1. Publicado no jornal A Tarde, o trabalho propõe utilizar o medicamento Dolutegravir, já consagrado no combate ao HIV, como estratégia para reduzir substancialmente os casos em que mães infectadas passam o vírus aos filhos durante a gravidez, parto ou amamentação. Os resultados esperados têm potencial de transformar protocolos de saúde materno-infantil e reforçar políticas públicas no Brasil para que, até 2030, seja possível vencer essa forma silenciosa, porém devastadora, de infecção.
Confira a matéria completa
Um estudo inédito da Fiocruz Bahia vai investigar o uso do medicamento Dolutegravir (DTG) – usado no tratamento do HIV, na prevenção da transmissão vertical do HTLV-1, um vírus da família do HIV que infecta as células T do corpo humano. Conduzido pela Fiocruz Bahia em parceria com o Ministério da Saúde (MS), o estudo clínico PrevINIr HTLV-TV representa um marco na luta contra um retrovírus silencioso e negligenciado, que pode ser transmitido da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação. Na Bahia, a contaminação pelo vírus é uma endemia.
O HTLV é transmitido através de relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de agulhas e seringas, e de mãe para o filho – principalmente pela amamentação. O Brasil é uma das maiores áreas endêmicas de HTLV do mundo, especialmente na região Nordeste.
Na Bahia, 1 em cada 100 gestantes tem HTLV-1 e por isso, desde 2011 a testagem para HTLV é feita nas gestantes baianas. Em 2025, o MS incorporou a realização da sorologia em todo o território nacional e, junto com a OMS, estabeleceu a meta de eliminar a transmissão vertical do vírus até 2030.
“Isso motivou nosso estudo e é uma oportunidade ímpar para que possamos contribuir com essa meta. A nossa escolha pelo DTG surgiu por ele ser um medicamento seguro e eficaz para barrar a transmissão vertical do HIV, então vamos avaliar sua segurança e eficácia em gestantes vivendo com o HTLV e descobrir se podemos usar ele como mais uma forma de controlar a transmissão vertical, evitando que os bebês cresçam com a doença”, explica a coordenadora do estudo, a infectologista e pesquisadora da Fiocruz Bahia, Fernanda Grassi.

Uma gestante com diagnóstico de HTLV têm 25% a 30% de chance de transmitir o vírus para o seu bebê. A recomendação então é que seja feito o clampeamento (corte) precoce do cordão umbilical e que o aleitamento materno seja suspenso, reduzindo as chances para 5%, “o que ainda é um número considerado alto”, afirma Fernanda Grassi, que tem como uma de suas motivações pessoais a história de famílias que possuem gerações de contaminados pelo vírus.
“Queremos criar alternativas para fazer com que as pessoas vivam bem e livres desse vírus, o importante é isso”, afirma.
Impactos e esperanças
Carregando o vírus do HTLV desde o nascimento, a psicóloga e mestranda em psicologia e intervenções em saúde, Adijeane Oliveira de Jesus só foi ter sintomas associados ao vírus na juventude: bexiga neurogênica, fraqueza nas pernas e quedas frequentes.
“Hoje, consigo andar apenas um pouco, dependo da cadeira de rodas e precisei me aposentar por invalidez. Infelizmente, o HTLV atravessa minha família inteira. Somosseis pessoas vivendo com o vírus e carrego no coração a dor de ter perdido meu irmão para uma leucemia linfoma causada pelo HTLV”, relata.
Adijeane é membro da Associação HTLVida (@htlvida) – que tem papel pioneiro ao quebrar o silêncio e o estigma em torno do HTLV. Ela conta que o estudo clínico representa uma enorme esperança para barrar o HTLV nas futuras gerações. “Um marco inédito e de enorme relevância científica e social. Esse estudo pode mudar a história dessa infecção negligenciada”, afirma. Não há nenhuma intervenção farmacológica comprovada para impedir a transmissão vertical do vírus.
Segunda tesoureira da HTLViva, Maria das Graças convive com o vírus há 25 anos – ela foi contaminada já na fase adulta – e afirma que esse estudo é uma vitória imensurável. “O HTLV é um vírus pouco conhecido e pouco falado, então um estudo que pode fazer com que as crianças não cresçam mais com ele é muito importante para nós”, afirma.
O estudo vai acompanhar 516 gestantes infectadas pelo HTLV-1 e seus recém-nascidos até os 18 meses de idade. Caso os resultados confirmem a eficácia da intervenção, a iniciativa poderá transformar protocolos de cuidado materno-infantil e influenciar diretamente as políticas públicas de saúde no Brasil e no mundo, beneficiando milhares de famílias.
Fonte: Jornal A Tarde