Déficits motores no autismo podem surgir na infância e persistem até a vida adulta

Embora não façam parte dos critérios centrais para o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), os déficits motores afetam a maioria das pessoas autistas e podem estar presentes desde os primeiros meses de vida. A constatação é de uma revisão conduzida por um grupo de pesquisadores brasileiros, entre eles a neurocientista Cecília Hedin-Pereira, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neuroimunomodulação (INCT-NIM), na Fiocruz. O trabalho reuniu e analisou evidências de 19 estudos científicos publicados entre 2014 e 2023 sobre alterações motoras em pessoas com TEA.

A revisão descreve, de forma abrangente, os principais prejuízos motores associados ao transtorno, incluindo dificuldades nas habilidades finas e grossas, equilíbrio, força muscular, marcha e coordenação. Esses déficits, segundo os autores, não apenas persistem até a vida adulta, como também impactam diretamente aspectos sociais, cognitivos e funcionais do indivíduo.

Mesmo não sendo parte do núcleo diagnóstico estabelecido pelos manuais nas últimas décadas, o papel secundário atribuído aos sintomas motores do TEA nesses documentos acaba também reduzindo a atenção que eles recebem por parte de clínicos e pesquisadores, as alterações motoras são frequentes, precoces e muitas vezes subestimadas, o que compromete o planejamento terapêutico e a qualidade de vida das pessoas com TEA.
De acordo com a pesquisadora Cecília Hedin-Pereira, o Sistema Único de Saúde (SUS) já oferece algumas terapias voltadas à reabilitação motora, como a Fisioterapia, a Terapia Ocupacional e a Fonoaudiologia. “Essas três áreas terapêuticas permitem abordar diversos déficits motores identificados em nosso estudo. No entanto, a ausência de diagnóstico precoce e a subnotificação dos déficits motores comprometem a adequada indicação dessas intervenções. Além disso, essas terapias ainda são, muitas vezes, subvalorizadas ou sub-representadas tanto no SUS quanto nos planos de saúde, o que limita significativamente o acesso das crianças com TEA”, destaca.

Cecília anda destaca que “mais estudos são necessários na área de reabilitação motora, a fim de consolidar evidências que demonstrem seu impacto positivo e contribuam para ampliar sua oferta. Esse avanço pode representar uma ponte importante para a melhoria da comunicação social e da integração social de crianças com TEA”.

A pesquisa e os métodos

A equipe realizou buscas em quatro bases de dados internacionais: Scopus, PubMed, Embase e Web of Science, e identificou 3.195 publicações. Após aplicação de critérios rigorosos de elegibilidade, 19 estudos foram incluídos na análise final, somando 784 indivíduos com TEA e 540 participantes de controle neurotípico.

Foram aplicadas diferentes escalas e testes validados internacionalmente, com o objetivo de investigar o desenvolvimento motor e o desempenho neurológico de crianças. Essas ferramentas permitem avaliar aspectos como coordenação motora, equilíbrio, planejamento de movimentos e a presença de possíveis dificuldades motoras ou sinais neurológicos sutis, a partir de atividades práticas ou questionários respondidos por pais e professores. (da Silva et al., 2025, p. 3–4).

Os estudos incluíam desde bebês até adultos de 39 anos. A maioria revelou que indivíduos com TEA apresentavam desempenho significativamente inferior em tarefas motoras, com maior número de adaptações para executar atividades simples do cotidiano.

Essas alterações envolvem desde a destreza manual até habilidades de equilíbrio e marcha, com implicações diretas nas interações sociais e na independência funcional, como detalha o estudo.

Interação entre motricidade e socialização

Além dos prejuízos motores em si, a pesquisa chama atenção para o papel dessas dificuldades no desenvolvimento de outras competências fundamentais. A relação entre habilidades motoras e sociais é destacada como interdependente: o atraso ou prejuízo na motricidade pode limitar oportunidades de socialização e vice-versa.

Segundo os autores, aprender a brincar com bola, imitar gestos ou participar de brincadeiras coletivas depende de uma base motora bem desenvolvida, e isso tem efeito direto sobre como a criança interage com o mundo ao redor.

A ausência de protocolos padronizados para avaliação motora no TEA ainda representa um desafio, dificultando a comparação entre os estudos. No entanto, os autores do estudo reforçam que esses sintomas devem ser incorporados às rotinas de avaliação e intervenção desde os primeiros anos de vida.

Para a pesquisadora Cecília Hedin‑Pereira, as habilidades motoras estão na base de diversos comportamentos fundamentais para a socialização e a comunicação, inclusive os não verbais. “O controle motor está na base de inúmeros comportamentos de comunicação social, inclusive os não verbais, como a produção de gestos, expressões faciais, movimentos oculares, postura corporal e a capacidade de imitar movimentos, habilidades que precisam ser aprendidas e interpretadas. Ele também é essencial para a coordenação motora envolvida tanto na linguagem verbal quanto na expressão integrada entre linguagem e movimento”, explica.

Segundo ela, dificuldades motoras, como a dispraxia, podem interferir diretamente em brincadeiras e jogos, momentos decisivos para o desenvolvimento de competências socioemocionais. “Por isso, é importante que professores estejam devidamente informados sobre essas questões, pois isso pode contribuir para que os alunos compreendam melhor as dificuldades enfrentadas por pessoas com TEA na integração social. É necessário explicar como identificamos nos outros sinais de empatia que nos aproximam, e informar que pessoas com TEA podem tanto ter dificuldades para ler esses sinais quanto para expressá‑los. Com esse entendimento, promove‑se um ambiente mais inclusivo e acolhedor para todos”, ressalta Cecília.

Caminhos para o futuro

Os resultados da revisão evidenciam a necessidade de maior atenção clínica às alterações motoras no autismo. Os pesquisadores defendem que elas passem a integrar os critérios diagnósticos e os programas de intervenção multidisciplinar, a fim de compreender que os aspectos motores do autismo não são secundários ou acessórios Eles estão profundamente entrelaçados ao desenvolvimento da linguagem, da cognição e da interação social.

O estudo também aponta lacunas importantes a serem preenchidas por futuras pesquisas, como o impacto dos déficits motores na vida adulta e sua evolução ao longo dos anos. Os autores sugerem o uso de tecnologias inovadoras, como rastreamento óptico de movimento e magnetoencefalografia, para aprofundar o entendimento sobre o comportamento motor e sua relação com os demais domínios do TEA.

Embora estudos mais recentes estejam aprofundando o tema, ainda há carência de padronização metodológica para avaliação da função motora em diferentes faixas etárias e contextos. Os resultados dessa revisão de escopo ressaltam a importância de considerar as habilidades motoras como parte integrante da abordagem clínica e terapêutica no TEA. Ademais, futuros estudos longitudinais e com amostras diversificadas são fundamentais para compreender a evolução desses déficits e sua interrelação com aspectos sociais, cognitivos e comportamentais ao longo da vida, como destaca o artigo publicado na Neuroscience and Biobehavioral Reviews (da Silva et al., 2025, p. 5).

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